Políticas do sintoma: interlocuções
Coordenação: Raul Albino Pacheco Filho
A inscrição do sintoma no corpo é um enigma que acompanha a Psicanálise desde a sua origem, como o atesta a afirmação de Freud em artigo escrito sete anos antes da publicação de "A interpretação dos sonhos" (1900): "nas suas paralisias e em outras manifestações, a histeria se comporta como se a anatomia não existisse ou como se não tivesse conhecimento desta." (ESB, v.I, p.188)

E a nítida evolução sobre o tema, que se constata no longo e cuidadoso percurso que atravessa as obras de Freud e Lacan, não extinguiu a face enigmática do assunto, como se pode apreender na frase que oferece o tema para o VI Encontro Internacional da IF-EPFCL: "o real, eu diria, é o mistério do corpo falante, é o mistério do inconsciente." (Lacan, Seminário 20, p. 178)

É verdade que nem o corpo nem o inconsciente permaneceram inalterados, em suas concepções, ao longo desse caminho, com este último assumindo seu estatuto no registro do real (fora do sentido), e sendo exigida, além disso, a formulação de novos conceitos como "lalíngua" ("lalangue") e "falasser" ("parlêtre"):
| |
'o campo do qual se trata não é o do estádio do espelho, o corpo da imagem, da forma. É o corpo substância que «se goza» e se situa no espaço da vida. (...) é o mistério do corpo marcado, afetado pelo saber da lalíngua do sujeito e, de forma sempre singular, jamais completamente apreensível." (Soler, Colette. Praxis - Forum do Campo lacaniano, Seminário de Psicanálise. Hospitais Pediátricos La Scarpetta, Roma, 12 de maio de 2007) |
Do mesmo modo, a noção de sintoma teve que ser repensada e aprofundada: do sintoma como metáfora portadora de uma mensagem significante a ser decifrada, à formulação de um sintoma opaco: uma letra capaz de produzir gozo; um 4º nó com função homóloga à do pai, de enlaçar os registros imaginário, simbólico e real.

Que direção clínica do tratamento (que 'política') é viável para tratar esse sintoma?! Certamente não a da busca do sentido: "a análise que recorre ao sentido para resolvê-lo não tem outra chance de conseguir senão se fazendo tapear ... pelo pai, como indiquei." (Lacan, "Joyce, o sintoma", In: Outros Escritos, p.566)
Mas serão apenas os psicanalistas, a se defrontarem com o sintoma e a buscarem desenvolver 'políticas' para tratá-lo? Teria sido Joyce uma exceção? "O extraordinário é que Joyce o tenha conseguido." (Id.) As palavras de Lacan não parecem encerrar definitivamente o assunto: "Sócrates, histérico perfeito, era fascinado pelo sintoma, captado do outro em vôo. (...) Tivesse ele cobrado dinheiro por isso, em vez de conviver com aqueles de quem fazia o parto, teria sido analista avant la lettre freudiana." (Ibid., p.565)
Em "O mal-estar na civilização"(ESB, v. XXI) Freud recenseou alguns modos, distintos da análise, pelos quais os seres humanos têm historicamente buscando enfrentar o "mal-estar na civilização": a Arte, A Religião, a Ciência, a loucura, as drogas e o amor. Poderiam também, essas vias distintas, ser chamadas 'políticas do sintoma'?
O objetivo das Conferências Mensais de 2010 é estabelecer uma interlocução com nossos colegas de outras áreas e disciplinas, de modo a podermos dialogar sobre as distintas concepções de corpo, sofrimento, doença, sintoma, tratamento e cura, que subjazem aos nossos diferentes campos do saber. |
|
| |
ConferÊncias mensais |
| |
Coordenação: Raul A. Pacheco Filho
Local: Contraponto
Convidados 2010:
30 de agosto
Linguagem e objeto na teoria
dos signos de Peirce.
Lucia Santaella: Doutora, Livre-Docente
e Professora Titular em Comunicação e Semiótica da PUCSP
debatedor: Christian Dunker
29 de setembro
Joyce, Lacan e o sinthoma
Claudia Lemos - Pscicanalista da
Escola de Psicanálise de Campinas
Doutora e Professora Titular do Instituto
de Estudos da Linguagem da UNICAMP
debatedor: Sílmia Sobreira
27 de outubro
José Ricardo de Carvalho Mesquita Ayres: Doutor, Livre-Docente e
Professor Titular do Departamento de
Medicina Preventiva da Faculdade de
Medicina da USP
debatedor: Raul Albino Pacheco Filho.
17 de novembro
Ana Lúcia Pastore Schritzmeyer: Doutora e Professora Doutora do Departamento de Antropologia da
FFLCH da USP
debatedor: Ana Laura Prates Pacheco
|
|