FÓRUM EM CAMPO

A experiência analítica: tratamento do corpo?
“Tratamentos do corpo em nossa época e na psicanálise” é a questão que os Fóruns do Campo Lacaniano colocaram em 2020 na pauta de suas
reflexões, interlocuções e elaborações. O Encontro Internacional da IF-EPFCL em julho próximo, na cidade de Buenos Aires, propõe acolher a diversidade das problemáticas que o tema levanta.

A ética da psicanálise é “a práxis de sua teoria”: a teorização da sua prática decorre das experiências, sempre singulares, dos sujeitos... na atualidade da época.

O trabalho proposto nas Formações Clínicas do Fórum do Campo Lacaniano em São Paulo para 2020 sustenta esta ética, com seus dispositivos e a disposição de cada um, que desejamos em permanente atualização.
“Tratamentos do corpo em nossa época”: com efeito, a história, a antropologia, a sociologia, a
filosofia, a ciência, a medicina etc. testemunham que os tratamentos do corpo – pretenso sítio de uma “natureza humana” – são, de fato, de uma diversidade e plasticidade impressionantes, e de uma extrema sensibilidade ao discurso, suas transformações e mutações. O corpo, sítio “natural” da limitação inelutável do sexo e da morte, parece hoje em dia estender os limites do impossível.
Essa perseguição do humano mais além de sua natureza e da sua finitude corporal intrínseca chega até o sonho trans-humanista que extrapola as descobertas da tecnologia e da ciência, prometendo uma fusão do biológico e das máquinas, a virtualização da realidade, a desmaterialização e a inteligência artificial, a supressão da reprodução sexuada e até mesmo a imortalidade.
Mal-estar na cultura... Não podemos deixar de nos encantar e nos aproveitar do progresso; contudo, não podemos deixar de nos preocupar
com os destinos e os avatares sociopolíticos deste humano, demasiado humano. Como Orwell, e tantos outros, escreveriam, hoje, o melhor dos
mundos de “2084”?
O corpo, sítio “natural” da finitude, parece, hoje em dia, estender os limites de seu impossível, como se a conjunção do imaginário e do simbólico
pudesse finalmente apreender o corpo em termos de algoritmos, e a vida como um sistema retroativo de informações, até acabar definitivamente com o real (solução final).
A questão: “Tratamentos do corpo em nossa época e na psicanálise” convoca a nossa prática na sua necessária extensão clínica, ética e política.


A experiência analítica: tratamento do corpo?
Embora o nome que designa a sua operação não deixe isso claro de saída, a psicanálise – que Freud chegou a nomear “tratamento de alma” – faz questão do corpo.
Ela nasceu no final do século XIX, a partir do embate de um médico, Sigmund Freud, com fenômenos que estenderam o campo de sua experiência clínica, pois não cabiam no saber científico da época. A sua apreensão do sintoma, da angústia, da sexualidade, da pulsão no lugar do instinto, do narcisismo fundamental, mudou radicalmente a maneira de considerar e tratar o malestar e o binarismo da “alma” e do corpo.
A apreensão e consideração do sintoma não foi um a priori, mas uma consequência das primeiras abordagens clínicas de Freud: os sintomas das
histéricas se deslocavam a partir do momento em que se escutava a sua mensagem e se decifrava seu sentido:
a polaridade corpo/espírito foi definitivamente abalada e abolida.
A escuta e leitura do sintoma – como mensagem transportando um sentido (“O sentido do sintoma”) - e não como “simples” patologia tendo que ser removida – é o ponto de partida da psicanálise. Lacan nomeará o sintoma: “acontecimento de corpo” apontando, assim, para seu “sem sentido” original, ou seja, para a terceira dimensão necessária a sustentação do humano: o Real.
A consideração da angústia configura outro tratamento do corpo que a psicanálise inaugurou desde seu início: a angústia é signo de singularidade,
enquanto sinal de solidão e desemparo, isto é, como dirá Lacan mais tarde: “o sentimento que surge desta suspeita de nos reduzirmos a nosso corpo”.
Lacan, no entanto, em sua primeira releitura freudiana, parecia desconsiderar o corpo, denunciando-o como consistência imaginária, e privilegiando este incorpóreo em que consiste o significante. O correlato da sua estrutura de representação metafórica e metonímica do sujeito é
uma mortificação do corpo desertificado do gozo.
Contudo, ao longo de seu ensino – testemunho do rigor da formalização que acompanhou a sua experiência da clínica e suas surpresas – configura-se e organiza-se a revalorização do corpo enquanto sítio de gozo, localizado nas articulações das três dimensões distinguidas por Lacan como heterogêneas e equivalentes: o Imaginário, o Simbólico e o Real. O corpo que a psicanálise trata a partir de seu discurso e de sua práxis atópicos é um corpo tridimensional. A sua consistência imaginária proporciona uma significação unificadora ao corpo; por outro lado, recortado pela insistência repetitiva do significante em despojá-lo do gozo, exportado fora do corpo nas pulsões e seus circuitos, enquanto a ex-sistência real mantém vivo “o mistério do corpo falante", que segue escapando ao mapeamento simbólico e à continência imaginária.
A estrutura borromeana do “falasser” explica o que a práxis analítica implicava: a psicanálise tem apenas um meio – a fala do analisante –; essa “prática do blablá”, porém, pode constituir um tratamento do corpo, de seu sintoma e de sua angústia, marca
de seu exílio, signo de seu mistério e da “maldição sobre o sexo”.

 

Dominique Touchon Fingermann,
 

São Paulo, dezembro de 2019

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